Como a arte pode ajudar a escola e a família a tratar sobre o suicídio
Nova série da Netflix, Os 13 porquês lança luz sobre um assunto delicado e, ao mesmo tempo, urgente: o suicídio entre adolescentes. O Vida&Arte ouviu especialistas para saber como a arte pode ajudar a trazer o tema para a discussão na família e na escola
A personagem Hannah Baker, protagonista de Os 13 Porquês, tira a vida após enfrentar situações de constrangimento na adolescência. Série alerta para o fato de que o suicídio é responsabilidade de todos DIVULGAÇÃO
Por qual razão uma adolescente tira a própria vida? A nova série da plataforma de streaming Netflix, 13 Reasons Why (Os 13 porquês, em português), apresenta não um, mas 13 motivos que levam a jovem Hannah Baker a cortar os pulsos. Tratado como tabu em alguns segmentos, o suicídio é um problema tão histórico quanto urgente. Produções recentes destinadas ao público juvenil tratam do tema ou têm o suicídio como pano de fundo. Em Os 13 porquês, o mote são gravações em fitas cassete deixadas por Hannah narrando as causas da morte.
A protagonista vivenciou várias situações comuns aos adolescentes, mas, em geral, tidas como “pequenas” ou “irrelevantes”. Uma das provocações da série é colocar o suicídio como responsabilidade de todos - família, amigos, escola. Segundo o psiquiatra Henrique Luz, “pode ser considerado uma responsabilidade de todos no sentido de que os atos humanos podem impactar as subjetividades uns dos outros de maneira tão perversa e funesta que instigam o sujeito a trilhar um caminho de autodestruição”. Nesse bojo entram o bullying, o machismo e a exclusão sofridos por Hannah.
Ao longo da série, o espectador é confrontado com personagens complexas. Não há maniqueismos, pois os dramas particulares de cada um são pincelados ao longo da narrativa. Assim, o valentão da escola tem problemas com a mãe e a garota popular precisa lidar com a orientação sexual. Para Henrique, que também é psicanalista, há uma tendência de se buscar culpados quando uma morte acontece. “Todavia, os julgamentos extremos devem ser evitados. Não é uma questão de haver culpados e inocentes, vilões e heróis, mocinhos e bandidos. O fato é que todos devem estar advertidos de suas responsabilidades e das possíveis consequências de seus atos”, explica.
A série logo repercutiu entre várias faixas etárias. Espectadores lembraram dos próprios tempos de escola e a tag #nãosejaumporquê foi utilizada para falar da necessidade de compreender o outro. Parte do público, entretanto, condenou a abordagem ao suicídio feita na produção, alegando que ela presta um desserviço e pode induzir à autodestruição. Henrique acredita que é de grande validade que a literatura juvenil trate de temas delicados.
“Entretanto, por mais que cuidados sejam tomados, é impossível controlar e prever, com precisão, o efeito que uma obra vai exercer sobre o público que a contempla. Por exemplo, há relatos de que, no século XVIII, a publicação de Os sofrimentos do jovem Werther, um dos primores escritos por Goethe, foi seguida de uma onda de suicídios pela Europa, tendo-se atribuído a causa desse acontecimento a uma possível influência do personagem”, elabora.
Apoio
Com o sucesso da série, cresceu em 100% o número de emails enviados ao Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio gratuitamente. “São pessoas que estão vendo o seriado no computador e encaminham email”, diz a assessoria de imprensa do órgão. Desde a estreia de Os 13 porquês, em 31 de março, pelo menos 50 mensagens mencionaram a série.
Um dos pontos mais latentes da série é a difusão de fotografias embaraçosas através da internet. Para o psiquiatra, as redes sociais, como dispositivos de propagação de informações, podem atuar positivamente ou negativamente. “O compartilhamento não autorizado de imagens ou outros conteúdos íntimos e sexuais de uma pessoa, a reprodução de discursos de ódio, de ataques cruéis e desrespeitosos são capazes de levar o sujeito a um nível de desespero que pode conduzi-lo ao autoextermínio. Em contrapartida, nas redes sociais, pessoas angustiadas podem encontrar um espaço que lhes permite elaborar, de diversas maneiras, os mais perturbadores conflitos”. SERVIÇO
Os 13 porquês
Primeira temporada com 13 episódios disponível na Netflix
Centro de Valorização da Vida
Realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar.
Telefone: 141 (24 horas)
Site: www.cvv.org.br
Atendimento via chat, skype e e-mail.
Fonte:opovo


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